Três Lagoas, quarta-feira, 10 de março

09/03/2010 . Renèe Venâncio
Depoimento de uma mãe em luto
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De repente, tudo se transformou em desespero...

 

Nunca imaginei que eu pudesse sobreviver a uma dor tão grande. Fui pega de surpresa por uma tempestade que, de tão forte, me arrastou para o meio de um emaranhado de espinhos que se cravaram na minha carne. O vendaval foi tão violento, a ponto de deixar tudo fora do lugar. A ordem das coisas foi totalmente subvertida, e eu me vi ali, na contramão do tempo, acarinhando a pele fria de um filho que se foi antes da própria mãe.

 

Durante esse ritual mórbido, muitas lembranças vieram à tona. O tempo todo em que ali estive, olhando fixamente para o nada em que se transformou uma vida que eu mesma trouxe ao mundo, fiquei me questionando frontalmente sobre quais foram os meus erros e acertos. Eu queria a todo custo identificar o momento exato da história onde a minha culpa pudesse se encaixar nessa tragédia. Não tenho mais lágrimas para chorar, e o meu choro seco é o último grito de dor de uma mãe que ficou órfã de seu filho.  

 

As drogas nunca fizeram parte da minha vida, mas tiraram sem dó e nem piedade uma parte preciosa de mim. Talvez a minha parcela de culpa para esse trágico evento se resuma no fato de que antes eu achava que um cigarro de maconha era apenas um embalo da juventude. Quando me dei conta do meu engano, eu já havia sido destituída da minha autoridade de mãe pelo crack, essa droga maldita que entrou nas nossas vidas sem a gente perceber. Como mãe eu deveria saber desde sempre que as drogas, sejam elas quais forem, são porções demoníacas de infelicidade. Umas levam às outras e todas levam à morte ou a lugar pior. Lamentavelmente, aprendi isso tarde demais.

 

Mas eu lutei. Fiz tudo quanto eu poderia ter feito para que tudo ficasse bem, porém a minha determinação foi suprimida pela vontade equivocada de alguém a quem eu só quis amar e dar carinho. No final, nada do que fiz foi o bastante. Eu não fui capaz proteger a minha eterna criança das ilusões do mundo. Falhei. Falhei tentando acertar; e o que eu mais queria nesta minha vida era poder ter outra chance de mudar tal destino. Mas não há mais nada que possa ser feito. Tudo está definido e o vazio ganhou um lugar cativo na minha vida.  

 

Talvez alguém possa me criticar pelo resultado de tantos desacertos, mas não digam que eu não amei, porque eu amei com todas as minhas forças. Não digam que eu não ensinei, porque eu ensinei tudo que eu pude e com muito esmero. Não digam que eu não fui presente, porque eu fui mãe em tempo integral, e disso eu nunca abri mão. Não digam que faltou diálogo, porque as portas do meu coração de mãe  sempre estiveram abertas para acolher as dúvidas dos meus filhos. Não digam que virei as costas pra realidade, porque eu não virei, mas sim, dei de cara com esse final tão infeliz que eu nunca saberia prever.

 

Ninguém merece chorar como eu chorei. Ninguém merece sentir a culpa que eu senti. Ninguém merece perder, como eu perdi. Ninguém merece ser castigado como eu fui. O dom de ser mãe nunca foi e nunca será uma constante maré de alegrias, mas, sempre que as drogas estiverem permeando as relações em família, nada mais será felicidade.

 

Às mães que ainda podem fazer algo para proteger seus filhos desse mal, peço que não negligenciem, não subestimem os riscos e nem banalizem essas armadilhas tão comuns nos dias de hoje. Às mães que ainda podem evitar que um mal irreversível se abata sobre suas famílias, peço que não se neguem a dizer “não” e nem a impor limites aos seus filhos, mesmo que tais negativas os façam chorar. Às mães que ainda têm suas crias sob as asas, peço que tenham muito cuidado e vigiem diuturnamente contra as más companhias e as raposas sorrateiras que se aproximam fingindo amizade. O mal das drogas não dorme e espreita o tempo todo. Contra ele, nem o amor incondicional de uma mãe servirá como antídoto.

 

As drogas envenenam corpos e almas. As drogas são o avesso do sopro divino na criação do homem. O caminho das drogas não tem volta, e por mais que se pense que estamos imunes a esta praga, nunca se iluda: ninguém está livre. Quando o vício das drogas se instala no seio de uma família, dá-se inicio a um período de densas trevas e, sob trevas, é sempre mais difícil encontrar uma saída. Sem drogas há mais vida.

 

Renée Venâncio

  

“A morte não é a maior perda da vida.

A maior perda da vida

é o que morre dentro de nos

enquanto vivemos”.

 

Pablo Picasso

 

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Quem é
Renèe Venâncio

Renée Venâncio escreve artigos que falam sobre o dia-a-dia, sobre as pessoas com as quais convive e sobre críticas sociais, comportamentais e políticas. Treslagoense de coração e profundo apreciador da noite. Outras publicações podem ser vistas no Blog DIÁRIO DE UM MENTIROSO, no seguinte endereço: http://renevenancioo.blogspot.com/ E-mail para contato renevenancioo@yahoo.com.br

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